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Certeza

Domingo, 23.09.12

 Se é real a luz branca

 desta lâmpada,real

 a mão que escreve,são reais

 os olhos que olham o escrito?

 Duma palavra à outra

 o que digo desvanece-se.

 Sei que estou vivo

 entre dois parênteses.

 

 

Octavio Paz

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publicado por Zana às 23:20

Estamos sob o mesmo teto

Domingo, 23.09.12

 estamos sob o mesmo teto

 secreto

 onde o sol indesejável é barrado

 eu e você

 sob o mesmo nós

 dois, sóis

 sob o mesmo pôr

 (o enigma do amor)

 do sol

 onde todo contorno finda

 estamos

 sob a mesma pálpebra

 agora

 já e ainda

 intactos de aurora.

 

Paulo Leminski

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publicado por Zana às 22:45

FELIZ ANO NOVO!!!!

Sexta-feira, 30.12.11

Mas há a vida

que é para ser intensamente vivida

 

Há o amor,

que tem que ser vivido até a última gota

 

Sem nenhum medo.

Não mata.

 

Clarice Lispector

 

 

{#emotions_dlg.sol}Excelente 2012 para todos!!!!{#emotions_dlg.bouquete}

 

 

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publicado por Zana às 20:51

Soneto de Amor

Quarta-feira, 24.08.11

Talvez não ser é ser sem que tu sejas, 
sem que vás cortando o meio-dia 
como uma flor azul, sem que caminhes 
mais tarde pela névoa e os ladrilhos, 

sem essa luz que levas na mão 
que talvez outros não verão dourada, 
que talvez ninguém soube que crescia 
como a origem rubra da rosa, 

sem que sejas, enfim, sem que viesses 
brusca, incitante, conhecer minha vida, 
aragem de roseira, trigo do vento, 

e desde então sou porque tu é, 
e desde então é, sou e somos 
e por amor serei, serás, seremos. 

 

Pablo Neruda




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publicado por Zana às 18:25

Dorme, meu amor

Quarta-feira, 24.08.11

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -e

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

 

Maria do Rosário Pedreira

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publicado por Zana às 18:09

Outra maneira

Quarta-feira, 24.08.11

Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio". E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir a despedida. Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!" E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... ) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen... como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

 

José Gomes Ferreira

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publicado por Zana às 18:02

Resíduo

Quarta-feira, 24.08.11

De tudo ficou um pouco

Do meu medo. Do teu asco.

Dos gritos gagos. Da rosa

ficou um pouco.

 

Ficou um pouco de luz

captada no chapéu.

Nos olhos do rufião

de ternura ficou um pouco

(muito pouco).

 

Pouco ficou deste pó

de que teu branco sapato

se cobriu. Ficaram poucas

roupas, poucos véus rotos

pouco, pouco, muito pouco.

 

Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,

de duas folhas de grama,

do maço

― vazio ―  de cigarros, ficou um pouco.

 

Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

nas folhas, mudas, que sobem.

 

Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana,

dragão partido, flor branca,

ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.

 

Se de tudo fica um pouco,

mas por que não ficaria

um pouco de mim? no trem

que leva ao norte, no barco,

nos anúncios de jornal,

um pouco de mim em Londres,

um pouco de mim algures?

na consoante?

no poço?

 

Um pouco fica oscilando

na embocadura dos rios

e os peixes não o evitam,

um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.

Não muito: de uma torneira

pinga esta gota absurda,

meio sal e meio álcool,

salta esta perna de rã,

este vidro de relógio

partido em mil esperanças,

este pescoço de cisne,

este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:

de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,

de tudo ficou um pouco;

vento nas orelhas minhas,

simplório arroto, gemido

de víscera inconformada,

e minúsculos artefatos:

campânula, alvéolo, cápsula

de revólver... de aspirina.

De tudo ficou um pouco.

 

E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

 

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,

e sob as ondas ritmadas

e sob as nuvens e os ventos

e sob as pontes e sob os túneis

e sob as labaredas e sob o sarcasmo

e sob a gosma e sob o vômito

e sob o soluço, o cárcere, o esquecido

e sob os espetáculos e sob a morte escarlate

e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes

e sob tu mesmo e sob teus pés já duros

e sob os gonzos da família e da classe,

fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão. Às vezes um rato.

 

Carlos Drummond de Andrade

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publicado por Zana às 17:39

Não tenhas medo do amor

Quarta-feira, 24.08.11

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão devagar sobre o peito da terra e sente respirar no seu seio os nomes das coisas que ali estão a crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis; a menta perfumada para as infusões do verão e a teia de raízes de um pequeno loureiro que se organiza como uma rede de veias na confusão de um corpo. A vida nunca foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo. Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor da tempestade que faz ruir os muros: explode no teu coração um amor-perfeito, será doce o seu pólen na corola de um beijo, não tenhas medo, hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

 

Maria do Rosário Pedreira

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publicado por Zana às 17:35

Roteiro

Segunda-feira, 18.07.11

Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz
Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais
Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar
Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor
E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.

 

João Rui de Sousa

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publicado por Zana às 17:59

Sólo en sueños...

Domingo, 01.05.11

Sólo en sueños,
sólo en el otro mundo del sueño te consigo,
a ciertas horas, cuando cierro puertas
detrás de mí.
¡Con qué desprecio he visto a los que sueñan,
y ahora estoy preso en su sortilegio,
atrapado en su red!
¡Con qué morboso deleite te introduzco
en la casa abandonada, y te amo mil veces
de la misma manera distinta!
Esos sitios que tú y yo conocemos
nos esperan todas las noches
como una vieja cama
y hay cosas en lo oscuro que nos sonríen.
Me gusta decirte lo de siempre
y mis manos adoran tu pelo
y te estrecho, poco a poco, hasta mi sangre.
Pequeña y dulce, te abrazas a mi abrazo,
y con mi mano en tu boca, te busco y te busco.
A veces lo recuerdo. A veces
sólo el cuerpo cansado me lo dice.
Al duro amanecer estás desvaneciéndote
y entre mis brazos sólo queda tu sombra.
 
Jaime Sabines

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publicado por Zana às 23:23

Nunca são as coisas mais simples

Terça-feira, 29.03.11

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

 

Nuno Júdice

 

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publicado por Zana às 23:12

Mas que sei eu...

Sexta-feira, 25.02.11

 

 

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

Ruy Belo

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publicado por Zana às 21:09

Panorama Além...

Domingo, 19.12.10



Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei nada.
Nem ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
- Existência parada. Existência acabada.
Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: – o luar triste na geada…
Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém… O ermo atrás do ermo: – é a paisagem daqui.
Tudo opaco… E sem luz… E sem treva… O ar absorto…
Tudo em paz… Tudo só… Tudo irreal… Tudo morto…
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

Cecilia Meireles

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publicado por Zana às 22:36

Cheguei à janela

Domingo, 31.10.10

Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
 
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
 
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada
 
 
Fernando Pessoa

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publicado por Zana às 21:23

Reinvenção

Segunda-feira, 23.08.10
Hopper
Quadro de Hopper

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projecto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível reinventada.
Cecilia Meireles


 

 

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publicado por Zana às 23:53

Da Minha Aldeia

Sábado, 17.07.10

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

 

Alberto Caeiro ( O Guardador de Rebanhos)

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publicado por Zana às 21:51

El divino amor

Terça-feira, 01.06.10

Te ando buscando, amor que nunca llegas,
te ando buscando, amor que te mezquinas,
me aguzo por saber si me adivinas,
me doblo por saber si te me entregas.

Las tempestades mías, andariegas,
se han aquietado sobre un haz de espinas;
sangran mis carnes gotas purpurinas
porque a salvarme, ¡oh niño!, te me niegas.

Mira que estoy de pie sobre los leños,
que a veces bastan unos pocos sueños
para encender la llama que me pierde.

Sálvame, amor, y con tus manos puras
trueca este fuego en límpidas dulzuras
y haz de mis leños una rama verde.

Alfonsina Storni

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publicado por Zana às 02:17

Absolutamente Estulto

Quinta-feira, 29.04.10

 

Não sei; presumo.
A certeza é tirana;
sigo no rumo
da faina humana.

Vou em erro
e nele aprumo
o equilíbrio débil
onde me fundo.

A ciência é vã
e a fé inútil,
no absurdo viés
do absoluto.

No sonho, ardo
fogo sem chamas,
de sina e rimas
a mim estranhas.

Assim cindido,
caminho trôpego;
cingindo signos,
fingindo esforço.

Lacero verbos
cerzindo velas,
velando ondas;
maré de sangue.

Na retaguarda
do movimento,
atado ao leme,
sou timoneiro.

Peixes voam,
cordeiros piam;
recolho espinhos;
planto alvoradas.

É clara a noite,
é negro o dia;
cuspo na boca
da namorada.

Não tenho norte;
a sorte é morte;
morro de fome
de madrugadas.

E nada tendo
de mais estulto
para brincar;
deixo estar.

 

 

Fred Matos http://eumeuoutro.blogspot.com/

 

 

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publicado por Zana às 02:45

Everness

Domingo, 21.03.10

Só uma coisa há. É o esquecimento.
Deus, que salva o metal, salva a escoria
E cifra na sua profética memória
as luas que serão e que hão sido.

Já tudo está. Os mil reflexos,
Que entre os dois crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
e os que irá deixando ainda.

E tudo é uma parte do diverso
Cristal dessa memória, o universo;
Não têm fim seus árduos corredores

E as portas se fecham a teu passo,
Só do outro lado do ocaso
Verás os Arquétipos e Esplendores.

 

Jorge Luis Borges

Tradução de Héctor Zanetti

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publicado por Zana às 16:51

Serradura

Segunda-feira, 22.02.10

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la,a mona,lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos cafés,pede um "bock"
Lê o "Matin" de castigo,
E não há nenhum remoque,
Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa,mas que maça:
Um zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da " Capital"
Pelo nosso Júlio  Dantas--
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia pela certa,
quando eu mal me precate,
É capaz de um disparate,
Se encontra uma porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar remédio?
--Para acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer.

O que era fácil-- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar "viva a Alemanha"
Mas a minha alma,em verdade,
Não merece tal façanha
Tal prova de lealdade.

Vou deixá-la --decidido--
No lavabo dum Café,
como um anel esquecido.
É um fim mais "raffiné".


       Mário de Sá Carneiro 
  

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publicado por Zana às 01:44

Science-fiction I

Segunda-feira, 21.09.09




Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.

Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.

Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.

Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.

Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.

 

 

Jose Saramago

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publicado por Zana às 02:04

Soneto Antigo

Sexta-feira, 21.08.09



Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.

 

Cecília Meireles

 

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publicado por Zana às 23:35

Transeunte

Sábado, 27.06.09


Transeunte numa cidade sem ruas,
é apenas um homem, apenas uma mulher.
A vida pesada cai sobre
os seus ombros cansados. Levados
de uma incerteza a outra incerteza,
de uma angústia a outra angústia,
no amargo sonho desta vida
pedindo ao verão o refrigério das sombras.

 

H. Dobal

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publicado por Zana às 23:07

Liberdade

Domingo, 21.06.09

 

 

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

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publicado por Zana às 22:20

Transitório

Sexta-feira, 01.05.09



Amanheço com a chuva
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal

E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos

A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida

Luiz de Miranda

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publicado por Zana às 01:33

Que fizeste das palavras

Segunda-feira, 23.02.09

 

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?
E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?
Que lhes dirás, quando
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

 

Eugenio de Andrade

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publicado por Zana às 20:01

A Palavra Seda

Sábado, 31.01.09

A atmosfera que te envolve
atinge tais atmosferas
que transforma muitas coisas
que te concernem, ou cercam.
E como as coisas, palavras
impossíveis de poema:
exemplo, a palavra ouro,
e até este poema, seda.
É certo que tua pessoa
não faz dormir, mas desperta;
nem é sedante, palavra
derivada da de seda.
E é certo que a superfície
de tua pessoa externa,
de tua pele e de tudo
isso que em ti se tateia,
nada tem da superfície
luxuosa, falsa, acadêmica,
de uma superfície quando
se diz que ela é “como seda”.
Mas em ti, em algum ponto,
talvez fora de ti mesma,
talvez mesmo no ambiente
que retesas quando chegas,
há algo de muscular,
de animal, carnal, pantera,
de felino, da substância
felina, ou sua maneira,
de animal, de animalmente,
de cru, de cruel, de crueza, que sob a palavra gasta
persiste na coisa seda

João Cabral de Melo Neto

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publicado por Zana às 20:03

Qualquer musica

Sexta-feira, 28.11.08

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!
 

 

Fernando Pessoa

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publicado por Zana às 00:50

Não quero recordar nem conhecer-me.

Sábado, 25.10.08

Não quero recordar nem conhecer-me.

Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.
Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.
Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.

Ricardo Reis

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publicado por Zana às 20:03

Há palavras que nos beijam

Segunda-feira, 21.07.08


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’ Neill

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publicado por Zana às 20:29

You Are Welcome To Elsinore

Segunda-feira, 21.07.08




Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mario Cesariny de Vasconcelos

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publicado por Zana às 20:23

Razão

Terça-feira, 29.04.08

"Razão de que me serve o teu socorro?

Mandas-me amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu penso, eu morro."

Bocage

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Misterios

Sábado, 22.03.08


Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

Adalgisa Nery

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publicado por Zana às 10:27

Palavra que desnudo

Terça-feira, 19.02.08

 
Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

Mia Couto

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publicado por Zana às 15:26

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Quarta-feira, 23.01.08

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!

 

Mário Quintana

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publicado por Zana às 22:13





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