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No Labirintto Z

"Este labirinto [ruas indefinidas] de linhas retas, não de complexidade, aonde o leva o tempo de um homem cuja verdadeira vida está longe." (Jorge Luis Borges)

No Labirintto Z

"Este labirinto [ruas indefinidas] de linhas retas, não de complexidade, aonde o leva o tempo de um homem cuja verdadeira vida está longe." (Jorge Luis Borges)

Carta em 2070

17.04.05, Zana
Assunto: Carta escrita em 2070

"Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a
minha aparência é de alguém de 85.
Tenho sérios problemas renais porque bebo muito pouca água.
Creio que me resta pouco tempo.
Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade.
Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente.
Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos
jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro com cerca de uma
hora.
Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele.
Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira.
Agora devemos rapar a cabeça para a manter limpa sem água.
Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira.
Hoje os meninos não acreditam que a agua se utilizava dessa forma.
Recordo que havia muitos anúncios que diziam CUIDA DA AGUA,
só que ninguém lhes ligava; pensávamos que a agua jamais se podia
terminar.
Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos
estão irreversivelmente contaminados ou esgotados.
Antes a quantidade de agua indicada como ideal para beber era
oito copos por dia por pessoa adulta.
Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que
aumenta grandemente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar os
poços sépticos (fossas) como no século passado porque as redes de
esgotos não se usam por falta de água.
A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos,
enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios
ultravioletas que já não têm a capa de ozono que os filtrava na atmosfera.
Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.
As infecções gastrointestinais, enfermidades da pele e das
vias urinárias são as principais causas de morte.
A industria está paralisada e o desemprego é dramático.
As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego
e pagam-te com agua potável em vez de salário.
Os assaltos por um bidão de agua são comuns nas ruas desertas.
A comida é 80% sintética. Pela ressiquidade da pele uma jovem
de 20 anos está como se tivesse 40.
Os cientistas investigam, mas não há solução possível.
Não se pode fabricar agua, o oxigénio também está degradado
por falta de arvores o que diminuiu o coeficiente intelectual das
novas gerações.
Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos
indivíduos, como consequência há muitos meninos com insuficiências,
mutações e deformações.
O governo até nos cobra pelo ar que respiramos. 137 m3 por
dia por habitante e adulto.
A gente que não pode pagar é retirada das "zonas ventiladas",
que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com
energia solar, não são de boa qualidade mas pode-se respirar, a idade
média é de 35 anos.
Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu
respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exercito, a agua
tornou-se um tesouro muito cobiçado mais do que o ouro ou os
diamantes.
Aqui em troca, não há arvores porque quase nunca chove, e
quando chega a registar-se precipitação, é de chuva ácida; as estações
do ano tem sido severamente transformadas pelas provas atómicas e da
industria contaminante do século XX.
Advertia-se que havia que cuidar o meio ambiente e ninguém
fez caso.
Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem
descrevo o bonito que eram os bosques, lhe falo da chuva, das flores,
do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens,
beber toda a agua que quisesse, o saudável que era a gente.
Ela pergunta-me: Papá! Porque se acabou a agua?
Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me
culpado, porque pertenço à geração que terminou destruindo o meio
ambiente ou simplesmente não tomámos em conta tantos avisos.
Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente
creio que a vida na terra já não será possível dentro de muito pouco,
porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.
Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade
compreendesse isto quando ainda podíamos fazer algo para salvar o
nosso planeta TERRA !"

Documento extraído da revista biográfica "Crónicas de los
Tiempos" de Abril de 2002. (Recebi por email do Thiago Mizuno )

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