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Se eu fosse um padre

Terça-feira, 27.07.04
orqbranca2jpg.jpg

Se eu fosse um padre

Mario Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

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Eu Falo das Casas e dos Homens

Domingo, 25.07.04
Adolfo Casais Monteiro
(1908 - 1972)

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!


Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...


Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .


Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?


Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

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publicado por Zana às 16:23

Mulher perfeitinha

Sábado, 24.07.04

Arnaldo Jabor


Tenho horror a mulher perfeitinha. Sabe aquele tipo que faz escova toda manhã, tá sempre na moda e é tão sorridente que parece garota-propaganda de processo de clareamento dentário? E, só pra piorar, tem a bunda dura?
Pois então, mulheres assim são um porre. Pior: são brochantes. Sou louco? Então tá, mas posso provar a minha tese. Quer ver?
A. Escova toda manhã. A fulana acorda as seis da matina pra deixar o cabelo parecido com o da Patrícia de Sabrit. Perde momentos imprescindíveis de rolamento na cama, encoxamento do namorado, pegação, pra encaixar-se no padrão "Alisabel é que é legal". Burra.
B. Na moda: estilo pessoal, pra ela, é o que aparece nos anúncios da Elle do mês. Você vê-la de shortinho, camiseta surrada e cabelo preso? JAMAIS! O que indica uma coisa: ela não vai querer ficar "desarrumada" nem enquanto tiver transando. É capaz até de fazer pose em busca do melhor ângulo perante o espelho do quarto. Credo.
C. Sorriso incessante: ela mora na vila do Smurfs? Tá fazendo
treinamento pra Hebe? Sou antipática com orgulho - só sorrio para quem provoca meu sorriso. Não gostou? Problema seu. Isso se chama autenticidade, meu caro. Coisa que, pra perfeitinha, não existe. Aliás, ela nem sabe o que a palavra significa, coitada.
D. Bunda dura. As muito gostosas são muito chatas. Pra manter aquele corpão, comem alface e tomam isotônico (isso quando não enfiam o dedo na garganta pra se livrar das 2 calorias que ingeriram), portanto não vão acompanhá-lo nos pasteizinhos nem na porção de bolinho de arroz do sabadão. Bebida dá barriga e ela tem HORROR a qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba onde começa a pornografia: nada de tomar um bom vinho com você. Cerveja? Esquece! Melhor convidar o Jorjão.
Pois é, ela é um tesão. Mas não curte sexo porque desglamouriza, se veste feito um manequim de vitrine do Iguatemi, acha inadmissível você apalpar a bunda dela em público, nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é
até onde chega a seqüência de bíceps e tríceps. Que beleza de mulher.
E você reparou naquela bunda? Meu deus...
Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa. Pode ter uns quilinhos a mais, mas é uma ótima companheira de bebedeira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, mas adora sexo. Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução (e, às vezes, nem chegam a ser um problema).
Mas ainda não criaram um remédio pra futilidade. Nem pra dela, nem pra sua.

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publicado por Zana às 01:25

Lord Byron

Sábado, 24.07.04
"Tudo que nós vemos ou parecemos
não passa de um sonho dentro de um sonho"

Tome esse beijo sobre a testa
E me apartando de você agora
Até aqui me deixa confessar
Que você não está tão errada quando julga
que meus dias tem sido sido um sonho
e ainda se a esperança se foi
numa noite, num dia,
numa visão, ou uma memória
é portanto um aproveitar menos?
Tudo que nós vemos ou parecemos
não passa de um sonho dentro de um sonho

Eu permaneço no meio do brumido
da arrebentação da tormenta na praia
e seguro entre minhas mãos
grãos de areia dourados
quão pouco ainda eles rastejem
pelos meus dedos até a ponta
enquanto eu choro, enquanto eu choro
oh deus não posso prende-los com um gancho apertado?
oh deus não posso salvar um
da onda impiedosa?
tudo que nós vemos ou parecemos
não passa de um sonho dentro de um sonho?

Lord Byron

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publicado por Zana às 00:15

Nietzsche

Sábado, 24.07.04
"Temos a arte para que a verdade nâo nos destrua"
Nietzsche

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publicado por Zana às 00:08

Mulher não nasce, estréia!

Sexta-feira, 23.07.04
Jorge Oliveira

Estréia na vida, no trabalho
Estréia na escola que seja da vida, mas estréia.Que seja o da vida, mas estréia.
E de estréia em estréia vai ficando aos poucos mulher dos acontecimentos, do dia a dia.
Estréia no Amor nas Emoções e nos sentimentos.
Estréia também nas decepções dos relacionamentos reais ou virtuais, não importa amorosos ou não, mas estréia .
Estréia na escolha dos parceiros que algumas vezes podem decepcioná-la, mas estréia.
Estréia na maternidade, onde certamente se dá o mais lindo fenômeno da vida:
O Nascimento! O choro, o primeiro de muitos que certamente virão.
A mulher é completa; nos sentimentos, nos gestos, nas emoções e na maioria de suas ações.
Seja pessoal, ou profissional ela conquista o direito da luta sem par. E ganhando em sua vivência.
Estréia na maior de suas experiências o direito de se ver e se sentir mulher.
Mulher se não nasce, também não morre.
Muda de dimensão, deixa o carinho, a saudade, a lembrança, enfim, uma prova viva da sua estréia.

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publicado por Zana às 02:55

Quadro de Degas

Quinta-feira, 22.07.04
degas1.1.GIF

Supremo enleio

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Quanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vinda foi três vezes santa!

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás-de encontrar ainda...


Florbela Espanca, Charneca em Flor (1930)


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publicado por Zana às 03:21

Serei...

Quarta-feira, 21.07.04
Flavia Porto

Serei eternamente tua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente tua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
- era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
- era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
- era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
- era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixar-te-ei livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelar-te-ei que estava a sua espera,
assim como sempre estive.

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publicado por Zana às 23:58

Dia do amigo

Quarta-feira, 21.07.04
amigo3.gif
DIA DO AMIGO


No dia 20 de Julho é comemorado o Dia do Amigo e como dizia o talentoso William Shakespeare: "Depois de algum tempo você aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias, e o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida"


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publicado por Zana às 01:55

Madre Tereza

Domingo, 18.07.04
madre2.jpg

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publicado por Zana às 06:59

Uma imagem de prazer

Sexta-feira, 16.07.04
imagemcorbisf.jpg
Uma imagem de prazer

"Conheço em mim uma imagem muito boa, e cada vez que eu quero eu a tenho, e cada vez que ela vem ela aparece toda. É a visão de uma floresta, e na floresta vejo a clareira verde, meio escura, rodeada de alturas, e no meio desse bom escuro estão muitas borboletas, um leão amarelo sentado, e eu sentada no chão tricotando. As horas passam como muitos anos, e os anos se passam realmente, as borboletas cheias de grandes asas e o leão amarelo com manchas - mas as manchas são apenas para que se veja que ele é amarelo, pelas manchas se vê como ele seria se não fosse amarelo. O bom dessa imagem é a penumbra, que não exige mais do que a capacidade de meus olhos e não ultrapassa minha visão. E ali estou eu, com borboleta, com leão. Minha clareira tem uns minérios, que são as cores. Só existe uma ameaça: é saber com apreensão que fora dali estou perdida, porque nem sequer será floresta ( a floresta eu conheço de antemão, por amor), será um campo vazio (e este eu conheço de antemão através do medo) - tão vazio que tanto me fará ir para um lado como para outro, um descampado tão sem tampa e sem cor de chão que nele eu nem sequer encontraria um bicho para mim. Ponho apreensão de lado, suspiro para me refazer e fico toda gostando de minha intimidade com o leão e as borboletas; nenhum de nós pensa, a gente só gosta. Também eu não sou em preto e branco; sem que eu me veja, sei que para eles eu sou colorida, embora sem ultrapassar a capacidade de visão deles (nós não somos inquietantes). Sou com manchas azuis e verdes só para estas mostrarem que não sou azul nem verde - olha só o que eu não sou. A penumbra é de um verde escuro e úmido, eu sei que já disse isso mas repito por gosto de felicidade; quero a mesma coisa de novo e de novo. De modo que, como eu ia sentindo e dizendo, lá estamos. E estamos muito bem. Para falar a verdade, nunca estive tão bem. Por quê? Não quero saber por quê. Cada um de nós está no seu lugar, eu me submeto bem ao meu lugar. Vou até repetir um pouco mais porque está ficando cada vez melhor: o leão amarelo e as borboletas caladas, eu sentada no chão tricotando, e nós assim cheios de gosto pela clareira verde. Nós somos contentes. "

Texto extraído do livro:
Para não esquecer. Clarice Lispector. Editora Rocco.
Rio de Janeiro. 1999. p. 36 - 37.




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publicado por Zana às 01:36

Dia mundial do Rock!

Terça-feira, 13.07.04
All I Want Is You

U2


You say you want diamonds on a ring of gold
You say you want your story to remain untold.
All the promises we make
From the cradle to the grave
When all I want is you.

You say you'll give me a highway with no-one on it
Treasure, just to look upon it
All the riches in the night.

You say you'll give me eyes in the moon of blindness
A river in a time of dryness
A harbour in the tempest.
All the promises we make, from the cradle to the grave
When all I need is you.

You say you want your love to work out right
To last with me through the night.

You say you want diamonds on a ring of gold
Your story to remain untold
Your love not to grow cold.
All the promises we break, from the cradle to the grave
When all I want is you.

Tudo que eu quero é você

Você diz querer
Diamantes em um anel de ouro
Você diz querer
Que sua história permaneça em segredo
Exceto todas as promessas que nós fizemos
Do berço à sepultura
Quando tudo que eu quero é você

Você diz que você me dará
Uma estrada apenas minha
Tesouros para apenas olhar
Todas as riquezas à noite
Você diz que você me dará
Olhos em uma lua de cegueira
Um rio em época de seca
Um porto na tempestade
Exceto todas as promessas que nós fizemos
Do berço à sepultura
Quando tudo que eu quero é você

Você diz querer
Que seu amor seja correto
O último comigo pela noite
Você diz querer
Diamantes em um anel de ouro
Que sua história permaneça em segredo
Que seu amor não cresça frio

Todas as promessas que nós quebramos
Do berço à sepultura
Quando tudo que eu quero é você


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publicado por Zana às 22:56

Eu quero amar perdidamente

Terça-feira, 13.07.04
Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia ter pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder ... pra me encontrar...

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publicado por Zana às 20:54

Overdose

Terça-feira, 13.07.04
Magda Maria Almodóvar

Sou viciada em carinhos
em abraços
em beijos
em afagos

Sou viciada em afetos
em ternura
em toque
em meiguice

Sou viciada em mar
em luar
em estrada
em chegar

Sou viciada em perfumes
em sapatos
em jóias
em sedas

Sou viciada em amigos
em filhos
em cães
em amores

Sou viciada em filmes
em escultura
em teatro
em literatura

Sou viciada em versos
em Vinicius em Baudelaire
em Neruda

Sou viciada em Bandeira
em Pessoa
em Cora
em Chico

Sou viciada em Romano
em Adélia
em Cecília
em Otaviano

Sou viciada em Drumond
em Camões
em Quintana
em Catulo

Sou viciada em música
em Cartola
em Gershin
em Peninha

Sou viciada em Mozart
em Caymi
em Milton
em Gonzaguinha

Sou viciada em Tom
em Elis
em Sinatra
em Caetano

Sou viciada em Nana
em Maysa
em Piaff
em Mariano

Sou viciada em Búzios
em água de côco
em camarão
em Geribá

Sou viciada em Brasil
em Pelé
em Garrincha
em café

Sou viciada em esperança
em verdade
em canto
em dança

Sou viciada em amar
em todas as formas de vida
em todas as formas de sonho
em todos os jeitos de dar

Vou morrer de overdose
cheirando maresia
enlouquecida em orgasmos
delirando poesia

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publicado por Zana às 20:42

100 anos de nascimento de Pablo Neruda

Terça-feira, 13.07.04

"Já não se encontrarão os meus olhos nos teus olhos. Já não se
adoçará junto a ti a minha dor, mas por onde for levarei o teu olhar
e para onde fores levarás a minha dor."
Pablo Neruda,

Neruda nasceu no dia 12 de julho de 1904, no Chile. Comunista e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Neruda morreu em 1973.

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publicado por Zana às 03:56

Interrogação

Sexta-feira, 09.07.04
Camões

Se nascesse entre nós uma paixão violenta?
Uma dessas paixões que surgem de improviso,
Por causa de um olhar, de um gesto de um sorriso,
De uma atitude estranha ou de uma frase lenta?

Se, um dia, por acaso, os dois, no mesmo instante,
Sentíssemos no peito um louco alvoroço,
Eu te achasse mais linda e me achasses mais moço,
Ambos a nos sorrir, num silêncio expectante?

Qual de nós falaria, primeiramente?
Quem o sabe?...Talvez me voltasses o rosto;
E eu fizesse também embora a contra gosto,
O que fizesses tu, chorando intimamente...
Porque eu te amo! Não fora esta oportunidade
E nunca te dissera. Amo-te de tal forma,
Que ao ver-te, o coração logo se transforma:
Nem parece que vive a morrer de saudades...

-É que tu me inspiraste uma paixão violenta,
Uma doida paixão que nasce de improviso,
Por causa de uma atitude estranha...
E de uma frase lenta...

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publicado por Zana às 00:24

Suavíssima

Sexta-feira, 09.07.04
Cecília Meireles

Suavíssima
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Cecília Meireles

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publicado por Zana às 00:12

Um anjo vem todas as noites

Sexta-feira, 09.07.04
Lya Luft

Um anjo vem todas as noites
Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim, e passa
sobre meu coração a asa mansa,
como se fosse meu melhor amigo.

Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta
entre ti e mim, e está comigo.


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publicado por Zana às 00:08

Corridinho

Quinta-feira, 08.07.04
Adélia Prado

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
e descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

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publicado por Zana às 03:53

Leva-me a um lugar

Quinta-feira, 08.07.04
Hilda Hilst

Leva-me a um lugar onde a paisagem
se pareça àquela das visões da mente.
Que seja verde o rio, claro o poente
que seja longa e leve a minha viagem.

Leva-me sem ódio e sem amor
despojada de tudo que não seja
eu mesma. Morna estrutura sem cor
a minha vida. E sem velada beleza.

Leva-me e deixa-me só. Na singeleza
de apenas existir, sem vida extrema.
E que nos escuros claustros do poema
eu encontre afinal minha certeza.

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publicado por Zana às 03:49

Aflição

Quinta-feira, 08.07.04
Hilda Hilst

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


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publicado por Zana às 03:46

Nossa sabedoria é a dos rios

Segunda-feira, 05.07.04
Carlos Nejar

Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir. Ir com os rios,
onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.

E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros.

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publicado por Zana às 22:17

O Livro Sobre Nada

Domingo, 04.07.04
wevermelhas.jpg


Manoel de Barros



Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.

Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

A inércia é o meu ato principal.

Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.

O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.

A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

Por pudor sou impuro.

Não preciso do fim para chegar.

De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.

Do lugar onde estou já fui embora.

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publicado por Zana às 03:53

Traduzir-se

Sexta-feira, 02.07.04
Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Ferreira Gullar

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publicado por Zana às 01:00





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