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Crônica da loucura

Domingo, 19.09.04
Mário Prata

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos.
Existem dois tipos de loucos.
O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o
psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a
loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não
era louco, ficou. Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto,
acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas.
Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal. O
melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os
meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma
casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre
tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali
a pouco. Ninguém olha para ninguém. O silencio é uma loucura. E eu, como
escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos
filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a
sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente
absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como
ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos: Na
última quarta-feira, estávamos: (1)eu, (2)um crioulinho muito bem
vestido, (3) um senhor de uns cinqüenta anos e (4)uma velha
gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de
cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos
eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e
ensimesmados. (2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país
racista como o nosso, deve ter contribuído muito para leva-lo até aquela
poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam
ou conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis
estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar
dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que
ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá
dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no
mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso.
Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro
da mala assassina. (3 )E o senhor de terno preto, gravata, meias e
sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava,
mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E
manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía
as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável.
Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já
estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente,
interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro,
abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter
dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem
com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda
imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia
fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era
esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da
bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava.
Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser
dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há
dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o
analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista. Conto
para ele a minha "viagem" na sala de espera. Ele ri, ri muito, o meu
psicanalista e diz:"(2) O Ditinho é o nosso office-boy.(3) O de terno
preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no
Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.(4) E a gordinha é
a Dona Dirce, a minha mãe. E (1) você, não vai ter alta tão cedo..."

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publicado por Zana às 17:55


1 comentário

De Anónimo a 20.09.2004 às 00:46

Gostei. Na verdade somos todos loucos! bjsMaria Papoila
(http://panquecas2.blogspot.com/)
(mailto:mariapapoila36@sapo.pt)

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